Praga do Século XXI

JOSÉ DE SOUSA (*)

Não, não é de uma doença semelhante à peste negra, que no século XIV dizimou cerca de metade da população da Europa, Ásia e Norte de África, que vou aqui abordar. Mas o tema não deixa de ser preocupante num tempo em que tudo parece ser hiper-importante, super-rápido e vital para a nossa felicidade.

Abra-se a televisão num qualquer canal, navegue-se pelas redes sociais, consulte-se um órgão de comunicação social na Internet ou simplesmente atente-se às inúmeras mensagens que recebemos de amigos e conhecidos. Não é difícil encontrar um pseudo-especialista, um comentador sempre bem informado ou um influenciador. Muitas vezes, encontramos os três na mesma pessoa: um verdadeiro “3 em 1”.

A pandemia de Covid-19, a guerra na Ucrânia, o conflito no Médio Oriente, o Mundial de Futebol, a Inteligência Artificial, as alterações climáticas, as urgências hospitalares, os médicos de família, o preço dos combustíveis ou os percalços dos políticos são apenas alguns dos temas que a comunicação social e as redes sociais exploram até à exaustão.

E, para cada assunto, lá aparecem os especialistas, ou melhor, os “especialistas”. As matérias são muitas e os pseudo-especialistas multiplicam-se como cogumelos no outono.

Numa definição consensual, especialista é aquele que possui conhecimentos profundos, competências técnicas e experiência prática num campo restrito e específico do saber. Ora, o problema dos nossos dias é que parece existir cada vez mais gente “especialista” em quase tudo.

Os pseudo-especialistas são hoje uma verdadeira praga, com consequências que podem ser graves. Propagam desinformação e mitos sem qualquer base científica, alimentam o descrédito nas instituições, promovem o ceticismo e, por vezes, influenciam a própria opinião pública e as políticas públicas através de dados apresentados de forma incompleta, distorcida ou simplesmente falsa.

E há ainda outro efeito perverso: as vozes verdadeiramente conhecedoras acabam muitas vezes abafadas. Não porque lhes falte conhecimento, mas porque são remetidas ao silêncio. Não usam a linguagem do espetáculo, não procuram a polémica e, sobretudo, não precisam de transformar cada opinião num acontecimento.

A praga, porém, não se limita aos pseudo-especialistas. Surge frequentemente acompanhada por outra espécie igualmente nefasta: os pseudo-jornalistas.

Alguns parecem mais preocupados com a própria imagem do que com a informação que transmitem. O narcisismo, a autopromoção, a procura da fama e um certo carisma artificial acabam por substituir a responsabilidade de informar.

Perante este quadro, porque não experimentar papéis alternativos? Assim nasceram, ou ganharam força, os influenciadores. E quem são os influenciados? Todos nós!

Todos nós, que tantas vezes fazemos eco de irrelevâncias de toda a espécie, embrulhadas em pomposas narrativas vazias de conteúdo, mas convenientemente acompanhadas pelo selo de autoridade de um “especialista”.

Afinal, quem não partilhou já uma informação sem ter a certeza de que era verdadeira? Quem não comentou uma notícia depois de ler apenas o título? Quem não acreditou numa afirmação porque foi dita com convicção por alguém que parecia saber do assunto? É aqui que o fenómeno se torna verdadeiramente preocupante.

As chamadas fake news raramente são construídas a partir de uma mentira absoluta. Muitas vezes contêm uma pequena parcela de verdade, suficiente para criar identificação e tornar o resto plausível. É essa pequena verdade que abre a porta à manipulação.

Mas afinal como funciona o “3 em 1”?

O pseudo-especialista domina o vocabulário técnico de uma determinada área e traduz conceitos complexos, muitas vezes multidisciplinares, em fórmulas simples e aparentemente claras. O resultado é uma perigosa ilusão: a sensação de que se compreendeu profundamente aquilo que, na realidade, foi apenas simplificado.

O comentador aproveita a atualidade e as polémicas do dia para emitir opiniões rápidas, fortes e frequentemente polarizadas. O objetivo deixa de ser promover o debate e passa a ser provocar uma reação: indignação, aplauso, revolta ou apoio.

O influenciador, por sua vez, utiliza o carisma, a diferenciação pessoal, a imagem e, muitas vezes, a estética para construir uma comunidade de seguidores. A atenção transforma-se em audiência e a audiência em valor. Depois vêm os contratos publicitários, os produtos, as marcas, os eventos e tudo aquilo que possa ser convertido em negócio.

O “3 em 1” tornou-se, assim, um importante modelo de negócio.

A validação social passou a ser medida pelas audiências, pelos “gostos” e pelo número de seguidores. E estes números, tantas vezes, são apresentados como se fossem uma prova de competência, substituindo os tradicionais mecanismos de validação profissional, científica ou académica.

É uma mudança profunda. Hoje, pode parecer mais importante ter milhares de seguidores do que ter anos de estudo ou de investigação. É mais importante gerar uma reação do que apresentar um argumento. É mais importante ser ouvido do que ter alguma coisa para dizer.

E, neste novo mercado da atenção, quanto mais polémico, simplista e emocional for o comentário – desde que contenha aquela pequena parcela de verdade com a qual nos conseguimos identificar – maior tende a ser impactante.

Os exemplos abundam na política, na comunicação social, na publicidade e, naturalmente, nas redes sociais.

A questão é que o problema já não está apenas em quem produz a informação. Está também em quem a recebe, acredita nela e a multiplica.

Somos simultaneamente espectadores, consumidores e distribuidores de informação.

Por isso, talvez a verdadeira praga do século XXI não seja apenas a existência de pseudo-especialistas, pseudo-jornalistas ou influenciadores, é a facilidade com que todos nós podemos transformar uma opinião em verdade e uma partilha em certeza.

No fundo, entre a verdade e a mentira, vence aquela que você alimentar.

(*) Presidente da USEMA

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