José de Sousa (*)
Há temas que nos acompanham há muito tempo. Permanecem em silêncio, amadurecem connosco e, de repente, um acontecimento desperta-os de forma inevitável e esmagadora. Foi isso que aconteceu quando acompanhei as notícias sobre os recentes sismos na Venezuela.
Não foi o terramoto mais devastador da história, nem o de maior dimensão, nem sequer o mais próximo de Portugal. No entanto, tocou-nos de uma forma particularmente intensa. A razão é simples: entre as vítimas e os afetados, direta e indiretamente, encontram-se muitos portugueses e lusodescendentes. Mais de duzentas mil pessoas que, de uma forma ou de outra, sentimos como sendo “das nossas” – a diáspora portuguesa na Venezuela é muito forte e bastante próxima.
Como quase sempre acontece nestas circunstâncias, a solidariedade fez-se sentir de imediato. Multiplicaram-se as declarações de apoio, as campanhas de angariação de fundos e de bens, as promessas de ajuda, os especialistas em análises e previsões e os gestos públicos de preocupação. Tudo isto é, obviamente, importante e merece reconhecimento. Mas será suficiente?
Ao mesmo tempo, ocorreu-me uma questão inevitável: um sismo semelhante acontecerá, sem aviso, em Portugal. A questão não é “se”, mas “quando”! Estaremos verdadeiramente preparados? Os meios de socorro serão suficientes e responderão com eficácia? A Proteção Civil terá capacidade para enfrentar um cenário dessa dimensão? E, sobretudo, estaremos nós, enquanto sociedade, preparados para responder para além das palavras?
Foi precisamente esta reflexão que me levou a revisitar dois conceitos que tantas vezes usamos como se fossem sinónimos: solidariedade e altruísmo.
Embora caminhem lado a lado, não significam exatamente a mesma coisa. A solidariedade traduz um sentimento coletivo, uma consciência de pertença e de responsabilidade perante os outros. O altruísmo, pelo contrário, manifesta-se na ação individual, espontânea e desinteressada, quando alguém age em benefício do próximo sem esperar reconhecimento, recompensa ou sequer visibilidade.
Talvez seja essa a grande e significativa diferença.
A solidariedade anuncia-se, organiza-se, mobiliza-se e mostra-se – atente-se na comunicação social e nas redes sociais. O altruísmo acontece, muitas vezes, discreto e em silêncio. Sem comunicados, sem fotografias e sem necessidade de aplausos – apenas satisfação pessoal.
Vivemos numa época em que, por vezes, parece que um gesto só ganha valor quando é visto. A facilidade com que se proclama solidariedade nem sempre encontra correspondência na disponibilidade para agir quando ninguém está a ver. Por vezes, as pessoas são valorizadas enquanto reforçam uma causa, uma organização ou uma narrativa; quando deixam de ser úteis, tornam-se invisíveis. É uma realidade desconfortável, mas que merece ser pensada.
Isto não significa desvalorizar a solidariedade, pelo contrário. Ela continua a ser um dos pilares de qualquer sociedade livre, democrática e coesa. É graças à solidariedade que mobilizamos recursos, criamos redes de apoio e enfrentamos coletivamente momentos de crise. Mas talvez a solidariedade atinja o seu verdadeiro significado quando faz a ponte e se transforma em altruísmo, quando deixa de ser apenas intenção e passa a ser ação concreta.
O altruísmo nem sempre é fácil. Exige tempo, disponibilidade, renúncia e, muitas vezes, discrição. Também não deve significar o esquecimento de nós próprios, porque ninguém consegue cuidar dos outros de forma consistente se negligenciar a sua própria saúde física, mental e emocional. Ainda assim, continua a ser uma das mais nobres expressões da condição humana. 
Num tempo marcado por polarizações, interesses particulares e discursos cada vez mais ruidosos, talvez valha a pena recuperar o valor dos gestos simples, daqueles que não procuram reconhecimento nem retorno.
A par da liberdade e do respeito, a solidariedade e o altruísmo continuam a ser valores essenciais para construir comunidades mais humanas, mais justas e mais inclusivas.
Porque, no fim de contas, a verdadeira diferença não está naquilo que dizemos sentir pelos outros – está naquilo que escolhemos fazer por eles, sobretudo quando ninguém está a olhar.
Recordando, a propósito, John Kennedy no discurso de tomada de posse em 1961, “Ask not what your country can do for you, ask what you can do for your country” (“Não pergunte o que o seu país pode fazer por si, pergunte o que você pode fazer pelo seu país”).
(*) Presidente da USEMA

