JOSÉ DE SOUSA (*)
A ignorância é, por definição, a ausência de conhecimento. Todos somos ignorantes em determinadas matérias e mais esclarecidos noutras. A condição humana constrói-se precisamente sobre essa permanente tensão entre o que sabemos e aquilo que ainda desconhecemos.
A célebre expressão “o conhecimento é poder” (scientia potentia est), popularizada por Francis Bacon e Thomas Hobbes, traduz uma realidade intemporal: quem detém conhecimento possui uma vantagem decisiva na compreensão do mundo, na tomada de decisões e na capacidade de influenciar pessoas, grupos, organizações e sociedades.
Muitos séculos antes, Sócrates sintetizou a essência da sabedoria numa frase que atravessou mais de dois milénios: “Só sei que nada sei”. Longe de ser uma declaração de ignorância, esta afirmação representa a consciência dos limites do próprio conhecimento. E é precisamente essa consciência que impulsiona a procura de respostas, gera novas perguntas e alimenta o progresso intelectual.
Mas o que observamos atualmente?
Vivemos imersos numa avalanche permanente de informação. Televisão, Internet, redes sociais, publicidade, comentadores, influenciadores e plataformas digitais disputam incessantemente a nossa atenção. Nunca a humanidade teve acesso a tanta informação. Paradoxalmente, nunca foi tão difícil distinguir conhecimento de ruído.
O cérebro humano procura eficiência. Pensar exige esforço, tempo e energia. Por isso, existe uma tendência natural para aceitar explicações simples, rápidas e confortáveis. Contudo, tal como qualquer músculo que não é exercitado enfraquece, também a capacidade crítica se degrada quando deixa de ser utilizada.
A ignorância, por si só, não constitui um problema. É um estado natural que se vai reduzindo à medida que adquirimos conhecimento. O verdadeiro desafio está em transformar informação em conhecimento e conhecimento em sabedoria. Esse processo exige reflexão, comparação de fontes, verificação de factos e, frequentemente, a humildade de reconhecer que ainda não sabemos o suficiente.
Durante séculos, essa procura fazia-se através de livros, bibliotecas, professores, debate e estudo sistemático. Hoje, o acesso à informação está à distância de um clique. A vantagem é evidente e o problema também.
A Internet democratizou o acesso ao conhecimento, mas democratizou igualmente o acesso à desinformação. Ao lado de conteúdos rigorosos coexistem teorias falsas, manipulações, interpretações abusivas e narrativas cuidadosamente construídas para parecerem credíveis.
E é aqui que surge uma das patologias mais preocupantes do nosso tempo. E não se pense que esta patologia afeta apenas os menos letrados! De forma preocupante também atinge pessoas com elevada responsabilidade e poder.
Quando alguém possui conhecimentos limitados sobre um tema e encontra uma explicação aparentemente convincente, adornada por linguagem técnica, referências vagas a “estudos” ou argumentos emocionalmente apelativos, tende a aceitá-la como verdade. Pior ainda: passa a defendê-la com convicção.
O problema não é desconhecer. O problema é desconhecer e, simultaneamente, acreditar que se sabe.
Esta é a verdadeira “Dupla Ignorância”: ignorar um assunto e ignorar a própria ignorância, é a incapacidade de reconhecer as próprias limitações cognitivas. É a ilusão de conhecimento apresentado numa embalagem sofisticada, mas vazia de substância.
As redes sociais, os motores de busca, influenciadores digitais e, por vezes, até alguns órgãos de comunicação social contribuem para este fenómeno. Não criam necessariamente conhecimento, frequentemente criam apenas a sensação de conhecimento. Oferecem respostas prontas, simplificadas e emocionalmente apetecíveis, dispensando o esforço intelectual que o verdadeiro conhecimento exige.
Para quê estudar, aprofundar ou questionar, se a resposta surge instantaneamente no ecrã, pronta a consumir?
A Psicologia conhece bem este fenómeno. Em 1999, os psicólogos David Dunning e Justin Kruger descreveram aquilo que ficou conhecido como Efeito Dunning-Kruger ou da “Dupla Ignorância”: um fenómeno de viés cognitivo de incompetência inconsciente, onde as pessoas menos competentes numa determinada área tendem a sobrestimar os seus conhecimentos e capacidades.
Talvez seja esta uma das características mais marcantes do nosso tempo: o volume das opiniões deixou de estar relacionado com a qualidade do conhecimento. Muitas vezes, quem sabe pouco fala muito e quem sabe muito fala com prudência. Talvez seja precisamente por isso que o ruído tantas vezes se sobrepõe à razão.
Não, a culpa não é da Inteligência Artificial! A Inteligência Artificial é apenas uma ferramenta. O problema é humano: a crescente dificuldade em distinguir informação de conhecimento e a relutância em admitir aquilo que ainda não sabemos.
(*) Presidente da USEMA


