AS PREOCUPAÇÕES MAIORES DE UM SÉNIOR – O QUE ESPERAR DA VIDA?

José de Sousa (*)

É nas situações-limite que se revela o mais profundo de cada um de nós, tanto o melhor como o pior. Embora a atual calamidade atmosférica que afeta o país justificasse uma reflexão imediata, certos temas exigem distanciamento temporal e serenidade mental. Outros, porém, são constantes e por isso mais pertinentes.

Viver muito e viver bem são desejos quase universais. No entanto, como não existem soluções mágicas, viver bem implica responsabilidade individual. Essa consciência gera preocupações – inevitáveis, legítimas e, em muitos casos, estruturantes das escolhas que fazemos ao longo da vida.

No caso dos seniores, poucos contestarão que as principais preocupações se concentram em cinco áreas fundamentais:

  1. A manutenção da autonomia e da saúde funcional;
  2. A suficiência das pensões e dos rendimentos;
  3. O acesso efetivo aos cuidados de saúde, em particular ao Serviço Nacional de Saúde;
  4. A socialização face ao risco crescente da solidão;
  5. A segurança.

Olhando para a realidade do concelho de Mafra, que conjuga uma forte componente rural com uma economia de serviços muito ligados ao turismo, importa refletir sobre estes desafios. Apesar de ser um concelho relativamente jovem e em crescimento, os seniores com mais de 65 anos ultrapassam os 16 mil (cf. CMM, 2023), muitos vivendo isolados, situação que tende a agravar todas as preocupações referidas.

A Ciência ajuda-nos a enquadrar esta realidade. Estudos conduzidos por universidades como Harvard e Boston demonstram que pessoas com uma atitude otimista apresentam uma longevidade média 11 a 15% superior. Essa mentalidade associa-se a estilos de vida mais saudáveis, a um melhor equilíbrio emocional, a menor stress e risco cardiovascular, bem como a um sono mais tranquilo e reparador, o que, para além da longevidade, potencia uma maior qualidade de vida.

Se os fatores genéticos escapam ao nosso controlo, o mesmo não se aplica às atitudes, aos hábitos e à forma como nos relacionamos com os outros e com a vida. Essas escolhas, feitas diariamente, influenciam de forma decisiva todo o processo de envelhecimento.

Queiramos ou não, a vida é uma aprendizagem contínua. Quando vivida com atenção e sem preconceitos, essa aprendizagem pode traduzir-se em maior qualidade de vida e mais autonomia nas idades mais avançadas. As preocupações, frequentemente vistas como um sinal de negatividade, são afinal mecanismos naturais de alerta. Quando bem enquadradas, ajudam a manter o equilíbrio e a tomar decisões mais conscientes e informadas, potenciando momentos de maior satisfação e felicidade.

Não basta ouvir frases bonitas ou inspiradoras. É necessário entendê-las, senti-las, interiorizá-las e, sobretudo, agir pela razão. As dúvidas não são fraqueza, são fatores de segurança. Permitem avançar de forma gradual, avaliando ganhos e perdas: se o resultado é positivo, prossegue-se, mas se é negativo, ajustam-se as escolhas antes de voltar a prosseguir.

E afinal, o que esperar da vida quando se chega à idade sénior? A resposta terá de ser – esperar tudo o que ainda depende de nós e não confiar apenas na “sorte”, ter a serenidade para aceitar o que não controlamos e a lucidez para agir sobre o que está ao nosso alcance. A idade não retira dignidade, nem capacidade de decisão, pelo contrário, acrescenta experiência, memória e sentido crítico. O futuro, o nosso futuro, é idealizado por si, por mim, por todos nós. São as nossas escolhas que, em grande medida, determinam o nosso futuro, quer individual quer de grupo.

O conhecido princípio 80/20 de Vilfredo Pareto ajuda a clarificar esta ideia: uma pequena parte das nossas escolhas (20%) – a forma como cuidamos da saúde, como nos relacionamos, como ocupamos o tempo e como participamos na comunidade – produz a maior parte do bem-estar que sentimos (80%). Concentrarmo-nos no essencial é um ato de inteligência e de autonomia, não de resignação.

Ser sénior não é esperar passivamente. É continuar a escolher, a aprender e a intervir, mesmo que a um ritmo diferente. É recusar a solidão através da proximidade, é exigir direitos sem esquecer os deveres e é transformar preocupações em critérios para viver melhor. Afinal, envelhecer bem não é apenas um privilégio vazio – é uma construção diária que está em curso e onde a USEMA – Universidade Sénior de Mafra pode dar uma ajuda preciosa!

(*) Presidente da USEMA

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